terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Uma das análises de Paulo Francis sobre o Brasil

Não me lembro ao certo o nome da coletânea, creio que seja "O Brasil no mundo". Sei que tratava de uma abordagem, bem como de sugestões para o processo de redemocratização do Brasil após os vinte anos de ditadura.

Depois de passar por um período de violência e censura, o país finalmente via ir embora o poder dos militares. Ainda assim, a transformação fora gradual, e o primeiro presidente não militar, Tancredo Neves, foi escolhido por voto indireto. O problema é que Tancredo morreu antes de assumir e então oprocesso de volta à democracia levou mais um choque.

Entre os livros da coletânea em questão está o do genial Paulo Francis, que procurou fazer uma análise política do autoritarismo no Brasil desde as suas origens. Fazendo uso de uma teoria sociológica, o autor apresentou a relação entre a exercimento do poder das instituições no Brasil sobre o povo, com a formação cultural brasileira, ligada principalmente à Contra-Reforma.

Paulo Francis não foi o único a defender a tese de que muitos dos problemas que a sociedade brasileira sofre são devido a sua formação cultural baseada na ética católica. Tal corrente de pensamento defende que problemas como corrupção, forte tendência ao autoritarismo e abuso de poder são causados devido à idéia brasileira de que não se deve fiscalizar o governo, já que nenhuma mudança está ao nosso alcance.

A ética da formação católica sempre colocou que entre o homem e Deus deveria haver um intermediário. Até na hora de confessar os seus pecados, o sujeito deveria procurar um padre para intermediar sua relação com o criador. Essa carcterística acabou por embutir no brasileiro a idéia de que deve haver algúem para governar sua vida e que sempre existe uma instituição superior capaz de decidir por ele.

A Reforma Protestante de Luthero opunha-se, nesse aspecto, aos conceitos da Igreja Católica e trazendo uma formação arraigada no puritanismo inglês, pregava uma relação direta entre o homem e Deus, na qual o ser humano era capaz de decidir por si independentemente e dar o rumo que quizesse à sua vida. Essa idéia veio ao encontro da lógica capitalista da livre iniciativa privada e acabou se opondo a todo método positivista e burocrático que poderia ser imposto pelo Estado.

Acontece que o Brasil não foi colonizado pela Inglaterra e sim por Portugal, país notoriamente católico. E assim como houve a Reforma Protestante, houve também a Contra-Reforma, na qual a Igreja Católica visava fortalecer toda a moral do catolicismo que estava sendo denegrida por Luthero e suas renovações. As Companhias de Jesus ganharam o mundo, e o Brasil se viu colonizado por nossos irmãos lusos.

O humor ácido de Paulo Francis está presente nas ferozes críticas à dependência do povo brasileiro às instituições, e no caráter pouco participativo do brasileiro na vida de sua nação. Tudo isso, segundo ele, porque nossa formação cultural foi de cunho fatalista, com a afirmação de que a vida é sofrida e não podemos fazer nada para mudá-la. Quando ninguém toma conta do que é público alguem se apropria. Portanto, os políticos sentem-se à vontade.

A obra nos põe frente a frente com o conhecimento não só teórico, mas prático de Paulo Francis. O autor nos revela diálogos que teve com personagens importantes do meio político brasileiro, bem como bastidores do Golpe Militar, que não se limitou aos governantes brasileiros mas se extendeu também aos Estados Unidos.

Como toda grande análise, o livro retoma todos os antecedentes do Golpe, que já era previsto antes da posse de João Goulart. Paulo Francis ressalta que a eleição de Jânio Quadros fora a única em que houve uma participação eleitoral efetiva e consciente da sociedade brasileira. Com a renúncia de Jânio Quadros, o quadro (sem trocadilho) político para o governo de Goulart era desfavorável, uma vez que há muito a direita brasileira, apoiada à americana, queria se ver livre da ameaça esquerdista e via em Jango um de seus representantes.

Outro ponto interessante é quando Paulo Francis cita uma entrevista do ex-presidente militar Castelo Branco para o jornal O Estado de São Paulo, na qual ela afirma que a princípio o golpe não previa um regime ditatorial. Castelo afirmou que muitos militares pensaram em abandonar o barco quando se viram inseridos em uma ditadura. A idéia central do golpe era, com o apoio dos Estados Unidos, imprimir uma forma de governo forte e cantralizadora, que afastasse o perigo de uma revolução comunista.

Além da análise, o livro ainda traz toda a originalidade e autenticidade do jornalista, que passou por uma mudança ideológica interessante, indo da esquerda para a direita política e sendo aclamado por membros de ambas as partes em épocas diferentes.

Retomar o passado de um país de forma tão ardente para compreender como tudo se deu em baixo do nariz de um povo a cada dia mais distante da noção de cidadania foi uma missão muito bem desempenhada pelo autor. Muitas vezes tachado como “anti-povo”, Paulo Francis não deixou de alertar sobre um problema quase sempre ignorado: a falta de compreensão política do povo brasileiro.

2 comentários:

  1. Olá!

    A LivroPronto Editora convida você, autor, para uma conversa sobre a publicação de sua obra.

    Escreva para nós!
    gabriela@livropronto.com.br

    Um grande abraço!

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