sábado, 25 de abril de 2009

O amor pode ser tão prático quanto calçar uma luva

Tentar classificar a arte é uma tarefa que exige certo preconceito para com a mesma. Ainda mais quando se tratam das grandes obras de arte, as quais, devido a seu poder de fugir a tudo que é comum, acabam tornando limitados os critérios usados por qualquer classificador. É o caso da obra de Machado de Assis. Evitando comentar suas produções mais conhecidas, pretendo aqui escrever sobre um livro não tão comentado, mas que, no entanto possui aspectos interessantes.

Falo de “A mão e a luva” e sua grandeza reside justamente em mostrar de forma escancarada, como a conveniência de relações, a racionalidade nas escolhas e o interesse humano em causas próprias, podem destruir a mais límpida visão do amor. Como em toda a obra de Machado, o leitor que procurar descobrir o motivo de tamanha infelicidade, vai se deparar com um mar de situações que quase sempre desembocam no pessimismo.

No livro em questão, o bruxo do Cosme Velho conta a história de Guiomar, moça de origem humilde que se torna órfã cedo. Conhecendo desde muito nova o sofrimento, após a morte da mãe ela passa a ser criada por sua madrinha baronesa. Guiomar era dotada de uma enorme força de vontade para conseguir o que queria, e conseguia usar a razão para controlar seu coração.

Ela acabou despertando o interesse de três rapazes: o sentimental, ingênuo e inseguro Estevão, o egoísta e superficial Jorge, e o frio e calculista Luis Alves. O romântico Estevão chegou até a viver um tempo com Guiomar, mas, analisando bem o perfil dos três pretendentes e considerando o tom pessimista que sempre habita a obra de Machado, não fica difícil concluir com qual dos três a moça optou por se casar.

O livro tem um ritmo diferente em relação a outras obras mais conhecidas de Machado. “A mão e a luva” segue uma narrativa “inteiriça” (se aproximando da escola romântica), na qual a história fala por si e o narrador pouco interfere para a visão fatalista da situação. Machado não destila tanto suas ironias como nas memórias de Brás Cubas, por exemplo, apesar de elas aparecerem sutilmente, denunciando a hipocrisia da sociedade de seu tempo.

É justamente nesse ponto, que mostra a mistura de romantismo e realismo no livro, que insiro a colocação que fiz no começo do texto. “A mão e a luva” é considerado um livro da fase romântica de Machado, apesar de expor as asperezas da vida real. Os românticos hão de argumentar que no romantismo o pessimismo era uma das características mais marcantes, não vendo, portanto, nenhum problema em considerar tal obra como romântica. Porém, cabe aqui uma ponderação.

O romantismose baseia na ideia do sofrimento sentido pela rejeição da musa (e ou de uma situação) idealizada e nunca alcançada. Esse sofrimento vem acompanhado muitas vezes pela loucura ou alucinações, como vemos, por exemplo, em “Noite na Taverna” de Álvares de Azevedo, o relato de homens que, após beberem várias taças de vinho, passam a relatar suas relações (não se sabe se reais ou não) com cadáveres de mulheres as quais desejavam.

Mas veja que a dor, a loucura e o conseqüente sofrimento no romantismo, brotam de dentro do desejo. Não é à toa que na maioria dos livros pertencentes a essa fase, o autor escreve como sendo ele o detentor de todas as angústias. Nesse caso, as desilusões e em seguida, a ideia do pessimismo, são construídos na alma do personagem e por mais que ele saiba ser irrealizável o seu sonho de amor, no fundo de seu espírito ainda há a esperança ingênua de um apaixonado. É o eterno ciclo romântico de desejo e desilusão.

No livro de Machado em questão, as coisas não se dão assim. Talvez se a narrativa fosse constituída somente pelo personagem Estevão, relatando seus sonhos e enfim sua decepção para com Guiomar, a obra ganharia um caráter puramente romântico. Porém, a própria maneira como a trama se organiza, conflitando estereótipos, abordando a questão da riqueza, da posição social e da frieza do pensamento para um casamento por conveniência, vemos logo que a obra não se construiu imersa no sentimentalismo, mas sim, procurou mostrar a visão distanciada e ácida de seu narrador para com a ação sentimental.

Tentar encaixar um romance de Machado em uma fase literária não é tão fácil quanto separar na prateleira de um supermercado um produto que seja de limpeza de outro que seja comestível. Mais do que isso, é preciso entender a ótica de um grande autor, que procurou demonstrar sua visão de mundo, e dentro dela conflitar o real e o ilusório, o objetivo e o subjetivo, o sonho e a realização, e até que ponto esses elementos podem atingir as mais íntimas entranhas da existência humana.

Em vez de tentar colocar a obra de Machado na prateleira do supermercado, prefiro me perder nas questões que o livro pode levantar: seria Guiomar tão perversa somente por não querer um homem que tanto a idolatra? Teria Guiomar perdido seus sentimentos para a dura realidade da vida, sendo, por isso, incapaz de amar? Sendo o amor um compartilhamento de sensações, não seria Estevão incapaz de compartilhá-lo, dedicando somente a expor seus desvarios a uma mulher? A personalidade de Jorge seria tão medíocre assim a ponto de não considerarmo-lo importante para o desenrolar do romance? Não teria sido Luis Alves o pretendente que melhor soube mergulhar na alma de sua desejada? Ou no fim das contas o amor é um sentimento que não merece tanto esmero, e que perante as situações da vida torna-se uma atitude tão simples quanto por a mão em uma luva? (Luis Alves é a mão e Guiomar a luva!)

São questões que o leitor pode vir a levantar e por mais que não encontre suas respostas (o que provavelmente ocorrerá) é ainda mais vantajoso se perder nelas do que simplificar sua crítica, reduzindo a um único gênero uma obra de grande alcance. Até porque, melhor do que saber se estamos lendo um romance romântico ou realista, é mais interessante mergulharmos em questões intrísecas à vida, as quais Machado de Assis foi capaz de despertar inserindo alguns personagens em um tempo e espaço, tudo isso organizado por sua visão inclassificável.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Arrastando

Quando a vida nos penetra
Os olhos com o tempo cansam
A consciência uma hora cede
Os sonhos logo desatinam

A vida então se estreita
E o ser humano
Se torna tão humano
Que toda a existência
É pouca coisa
Ou tanta coisa
Que tão pouca coisa
Nos existe enfim

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Em que pé estamos?


Vivemos em uma sociedade na qual a quantidade, bem como a transmissão das informações, são enormes. As pessoas que têm maior acesso a elas acabam tendo também uma facilidade na hora de compreender e interagir com o mundo. Os avanços tecnológicos são os ícones maiores da modernidade em termos materiais, e aqueles que possuem maiores condições de obter os novos itens da tecnologia realmente levam vantagem na recepção da informação.

Ultimamente, políticas de inclusões têm estendido o acesso a esses meios à grande parte da população, e com isso a circulação de informações atingiu seu ápice. Todo o mundo, por bem ou por mal, uns com mais e outros com menos capacidade de recebê-las, acabam sabendo de tudo o que se passa, porém, dedicando pouco tempo à reflexão sobre aquilo que ficam sabendo.

Desde seu princípio na Terra, o homem, principalmente por necessidade, trabalhou incessantemente para transformar o meio em que vive, adaptando-o a seu modo de vida e visando maior conforto e bem-estar. Os descobrimentos da roda, do fogo, e com o passar do tempo, das ciências, que possibilitaram ao homem uma maneira de entender melhor a realidade em que vive, mostram que o ser humano tinha a necessidade de se colocar no mundo a ponto de não ser um simples animal como os outros. O surgimento das artes mostrou como é possível o ser humano se reinventar, transcender os limites da própria existência e criar um universo paralelo a partir da sua própria visão de mundo.

É verdade que tais descobertas nunca estiveram nas mãos da maioria. Nem mesmo todos os seres humanos foram capazes de criar seu próprio mundo com grande propriedade artística. Mas o que me faz escrever esse texto é uma idéia que me surgiu, e espero que consiga transmiti-la com clareza. Penso que a modernidade, e mais, as transformações da pós-modernidade, aos poucos, vêm secando a cada dia qualquer gota de imposição humana perante o mundo.

Quando o planeta não via nem em tese uma proposta de globalização, cada parte do globo vivia numa espécie de caráter provinciano. Apesar de muitos líderes terem se ambicionado com o domínio de vários países, havia a mentalidade de que a cultura do país dominante deveria se impor perante os vencidos, tal como fez Alexandre, o Grande. Isso porque se pensava que a realidade que cada um conhecia era a maneira de pintar o mundo e ao mesmo tempo compreendê-lo. Nas guerras das Eras Modernas e Contemporâneas a preocupação de imposição continuava, porém e principalmente com o surgimento do capitalismo e uma maior complexidade nas estruturas polítca e econômica, tal imposição parecia estar subordinada a forças e interesses que estavam longe de ser somente de cunho instintivo.

Quando a televisão não existia nem em projeto, e a internet não era objeto de pensamento nem do mais inventivo dos homens, os seres humanos pareciam viver fixamente, olhando o mundo através do lugar em que se encontravam. Tal fixação acabava por possibilitar uma condição mais favorável ao desenvolvimento de idéias e uma concentração maior naquilo que o homem se propunha a fazer.

Até quando os grandes navegadores antigos pensavam em deixar os locais onde viviam e para isso buscavam meios de ganhar todo o mundo através dos mares, é importante frisar que, para isso, foi preciso o próprio sentimento de se sentir preso. A curiosidade pelo novo e acima de tudo a motivação para desbravar o que estava longe foram a mola propulsora para tais avanços. Um homem a observar o céu, estrelas, constelações, planetas e que, antes de qualquer coisa era movido por seu ideal, tinha muito mais chances de fazer uma grande descoberta do que aquele interpelado por forças de ordens diversas. Afinal, imagine se Galileu Galilei teria o mesmo êxito caso deixasse seu telescópio de lado para entrar no orkut, ver as “novidades”(quase sempre superficiais)no site do seu provedor e depois assistir à telenovela.

Mesmo a genialidade não pertencendo a todos, devo dizer que vejo os dias atuais com um distanciamento das grandes transformações. Ainda existem as renovações, é verdade, mas nada parece muito novo. Tudo tem o seu percentual de novidade, mas a essência ainda continua embutida nas idéias dos grandes pensadores antigos.

No campo artístico a cultura massificada aliada à lógica do consumismo acabou por fazer uma devassa em qualquer índice de qualidade na produção, relegando as grandes obras atuais a um panorama de marginalização. Como se não bastasse, a população, também pela facilidade da informação, acabou por perder seu senso crítico, sua capacidade de pensar e questionar aquilo que a rodeia. Os núcleos científicos parecerem ser os únicos capazes de trazer alguma descoberta, mas mesmo assim, me parecem entregues a um mecanismo que prende o descobridor a algo já previsível.

Não é minha intenção tentar esboçar aqui o que acho a respeito do pensamento científico e da mentalidade que rege as normas para uma descoberta, bem como da participação das diferentes classes nesse procedimento. Pretendo falar sobre isso em uma próxima oportunidad. Por hora afirmo que, ao que me parece, hoje em dia há uma sistematização desde o início de uma situação experimental, até passar por sua elucidação e depois divulgação, de forma que encadeie qualquer invenção humana em uma padronização estética da ciência.

Quando Nietzsche propôs a maior reformulação do pensamento filosófico dos últimos tempos, se apresentando como um desmascarador de mitos, estava de fato desconstruindo todas as idéias vigentes, que não eram só das ciências humanas mas que alcançavam também as biológicas e as exatas. Apesar se não terem sido postas em prática, servem como objeto de estudo e a cada dia confirmam que Nietzsche acertara em muito do que disse. Porém, quando se cogita em vê-las realizadas, elas parecem engolidas pela pós-modernidade e engessadas pela sistematização de todos os modos de criação e produção.A isso tudo acrescenta-se, talvez, uma dose de culpa da metafísica e sua objetividade como mãe de todas as coisas.

Na sociedade do “tudo pronto”, na qual o ser humano esta condenado a ouvir a mesma musica, contar o mesmo tipo de piada e vestir o mesmo tipo de roupa dos demais, parecem estar reduzidas as chances de surgirem grandes nomes, nomes de homens capazes de apresentar seus ideais e enxergarem além de toda a parafernalha de informações superficiais e hábitos clichês que os cercam.

Só nos resta saber se até mesmo a ciência irá sucumbir ao marasmo das “novas descobertas velhas”. Como disse Cazuza, “Eu vejo um museu de grandes novidades”. Seria o momento de o homem ir além e buscar no inconsciente, no surreal, no longínquo, ou naquilo que hoje se chama loucura, novos caminhos para a raça humana? É preciso desprender-se de todos os males da "falsa liberdade" e fragmentação que parece protagonizar nossa existência atualmente. E se chegamos ao fim da linha, que inventemos outra.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Uma das análises de Paulo Francis sobre o Brasil

Não me lembro ao certo o nome da coletânea, creio que seja "O Brasil no mundo". Sei que tratava de uma abordagem, bem como de sugestões para o processo de redemocratização do Brasil após os vinte anos de ditadura.

Depois de passar por um período de violência e censura, o país finalmente via ir embora o poder dos militares. Ainda assim, a transformação fora gradual, e o primeiro presidente não militar, Tancredo Neves, foi escolhido por voto indireto. O problema é que Tancredo morreu antes de assumir e então oprocesso de volta à democracia levou mais um choque.

Entre os livros da coletânea em questão está o do genial Paulo Francis, que procurou fazer uma análise política do autoritarismo no Brasil desde as suas origens. Fazendo uso de uma teoria sociológica, o autor apresentou a relação entre a exercimento do poder das instituições no Brasil sobre o povo, com a formação cultural brasileira, ligada principalmente à Contra-Reforma.

Paulo Francis não foi o único a defender a tese de que muitos dos problemas que a sociedade brasileira sofre são devido a sua formação cultural baseada na ética católica. Tal corrente de pensamento defende que problemas como corrupção, forte tendência ao autoritarismo e abuso de poder são causados devido à idéia brasileira de que não se deve fiscalizar o governo, já que nenhuma mudança está ao nosso alcance.

A ética da formação católica sempre colocou que entre o homem e Deus deveria haver um intermediário. Até na hora de confessar os seus pecados, o sujeito deveria procurar um padre para intermediar sua relação com o criador. Essa carcterística acabou por embutir no brasileiro a idéia de que deve haver algúem para governar sua vida e que sempre existe uma instituição superior capaz de decidir por ele.

A Reforma Protestante de Luthero opunha-se, nesse aspecto, aos conceitos da Igreja Católica e trazendo uma formação arraigada no puritanismo inglês, pregava uma relação direta entre o homem e Deus, na qual o ser humano era capaz de decidir por si independentemente e dar o rumo que quizesse à sua vida. Essa idéia veio ao encontro da lógica capitalista da livre iniciativa privada e acabou se opondo a todo método positivista e burocrático que poderia ser imposto pelo Estado.

Acontece que o Brasil não foi colonizado pela Inglaterra e sim por Portugal, país notoriamente católico. E assim como houve a Reforma Protestante, houve também a Contra-Reforma, na qual a Igreja Católica visava fortalecer toda a moral do catolicismo que estava sendo denegrida por Luthero e suas renovações. As Companhias de Jesus ganharam o mundo, e o Brasil se viu colonizado por nossos irmãos lusos.

O humor ácido de Paulo Francis está presente nas ferozes críticas à dependência do povo brasileiro às instituições, e no caráter pouco participativo do brasileiro na vida de sua nação. Tudo isso, segundo ele, porque nossa formação cultural foi de cunho fatalista, com a afirmação de que a vida é sofrida e não podemos fazer nada para mudá-la. Quando ninguém toma conta do que é público alguem se apropria. Portanto, os políticos sentem-se à vontade.

A obra nos põe frente a frente com o conhecimento não só teórico, mas prático de Paulo Francis. O autor nos revela diálogos que teve com personagens importantes do meio político brasileiro, bem como bastidores do Golpe Militar, que não se limitou aos governantes brasileiros mas se extendeu também aos Estados Unidos.

Como toda grande análise, o livro retoma todos os antecedentes do Golpe, que já era previsto antes da posse de João Goulart. Paulo Francis ressalta que a eleição de Jânio Quadros fora a única em que houve uma participação eleitoral efetiva e consciente da sociedade brasileira. Com a renúncia de Jânio Quadros, o quadro (sem trocadilho) político para o governo de Goulart era desfavorável, uma vez que há muito a direita brasileira, apoiada à americana, queria se ver livre da ameaça esquerdista e via em Jango um de seus representantes.

Outro ponto interessante é quando Paulo Francis cita uma entrevista do ex-presidente militar Castelo Branco para o jornal O Estado de São Paulo, na qual ela afirma que a princípio o golpe não previa um regime ditatorial. Castelo afirmou que muitos militares pensaram em abandonar o barco quando se viram inseridos em uma ditadura. A idéia central do golpe era, com o apoio dos Estados Unidos, imprimir uma forma de governo forte e cantralizadora, que afastasse o perigo de uma revolução comunista.

Além da análise, o livro ainda traz toda a originalidade e autenticidade do jornalista, que passou por uma mudança ideológica interessante, indo da esquerda para a direita política e sendo aclamado por membros de ambas as partes em épocas diferentes.

Retomar o passado de um país de forma tão ardente para compreender como tudo se deu em baixo do nariz de um povo a cada dia mais distante da noção de cidadania foi uma missão muito bem desempenhada pelo autor. Muitas vezes tachado como “anti-povo”, Paulo Francis não deixou de alertar sobre um problema quase sempre ignorado: a falta de compreensão política do povo brasileiro.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Eu partido

No pé do mundo estão vocês
Na mão da vida vão vocês
Chupando as manhãs
Soprando-as nas noites
Recheando pensamentos

Por trás do sonho são vocês
Na dor da luta vão vocês
Compondo as memórias
Cantando-as no agora
Colorindo novos dias

Viver e só viver
Como se a vida fosse textos
E todo texto nos mostrasse:
Só vocês me detalham
Sou eu exposto por vocês

Vocês e só vocês
Como se eu fosse tudo
E tudo estivesse em vocês
Benditas letras de um "eu"
Sou eu partido em letras