Tentar classificar a arte é uma tarefa que exige certo preconceito para com a mesma. Ainda mais quando se tratam das grandes obras de arte, as quais, devido a seu poder de fugir a tudo que é comum, acabam tornando limitados os critérios usados por qualquer classificador. É o caso da obra de Machado de Assis. Evitando comentar suas produções mais conhecidas, pretendo aqui escrever sobre um livro não tão comentado, mas que, no entanto possui aspectos interessantes.Falo de “A mão e a luva” e sua grandeza reside justamente em mostrar de forma escancarada, como a conveniência de relações, a racionalidade nas escolhas e o interesse humano em causas próprias, podem destruir a mais límpida visão do amor. Como em toda a obra de Machado, o leitor que procurar descobrir o motivo de tamanha infelicidade, vai se deparar com um mar de situações que quase sempre desembocam no pessimismo.
No livro em questão, o bruxo do Cosme Velho conta a história de Guiomar, moça de origem humilde que se torna órfã cedo. Conhecendo desde muito nova o sofrimento, após a morte da mãe ela passa a ser criada por sua madrinha baronesa. Guiomar era dotada de uma enorme força de vontade para conseguir o que queria, e conseguia usar a razão para controlar seu coração.
Ela acabou despertando o interesse de três rapazes: o sentimental, ingênuo e inseguro Estevão, o egoísta e superficial Jorge, e o frio e calculista Luis Alves. O romântico Estevão chegou até a viver um tempo com Guiomar, mas, analisando bem o perfil dos três pretendentes e considerando o tom pessimista que sempre habita a obra de Machado, não fica difícil concluir com qual dos três a moça optou por se casar.
O livro tem um ritmo diferente em relação a outras obras mais conhecidas de Machado. “A mão e a luva” segue uma narrativa “inteiriça” (se aproximando da escola romântica), na qual a história fala por si e o narrador pouco interfere para a visão fatalista da situação. Machado não destila tanto suas ironias como nas memórias de Brás Cubas, por exemplo, apesar de elas aparecerem sutilmente, denunciando a hipocrisia da sociedade de seu tempo.
É justamente nesse ponto, que mostra a mistura de romantismo e realismo no livro, que insiro a colocação que fiz no começo do texto. “A mão e a luva” é considerado um livro da fase romântica de Machado, apesar de expor as asperezas da vida real. Os românticos hão de argumentar que no romantismo o pessimismo era uma das características mais marcantes, não vendo, portanto, nenhum problema em considerar tal obra como romântica. Porém, cabe aqui uma ponderação.
O romantismose baseia na ideia do sofrimento sentido pela rejeição da musa (e ou de uma situação) idealizada e nunca alcançada. Esse sofrimento vem acompanhado muitas vezes pela loucura ou alucinações, como vemos, por exemplo, em “Noite na Taverna” de Álvares de Azevedo, o relato de homens que, após beberem várias taças de vinho, passam a relatar suas relações (não se sabe se reais ou não) com cadáveres de mulheres as quais desejavam.Mas veja que a dor, a loucura e o conseqüente sofrimento no romantismo, brotam de dentro do desejo. Não é à toa que na maioria dos livros pertencentes a essa fase, o autor escreve como sendo ele o detentor de todas as angústias. Nesse caso, as desilusões e em seguida, a ideia do pessimismo, são construídos na alma do personagem e por mais que ele saiba ser irrealizável o seu sonho de amor, no fundo de seu espírito ainda há a esperança ingênua de um apaixonado. É o eterno ciclo romântico de desejo e desilusão.
No livro de Machado em questão, as coisas não se dão assim. Talvez se a narrativa fosse constituída somente pelo personagem Estevão, relatando seus sonhos e enfim sua decepção para com Guiomar, a obra ganharia um caráter puramente romântico. Porém, a própria maneira como a trama se organiza, conflitando estereótipos, abordando a questão da riqueza, da posição social e da frieza do pensamento para um casamento por conveniência, vemos logo que a obra não se construiu imersa no sentimentalismo, mas sim, procurou mostrar a visão distanciada e ácida de seu narrador para com a ação sentimental.
Tentar encaixar um romance de Machado em uma fase literária não é tão fácil quanto separar na prateleira de um supermercado um produto que seja de limpeza de outro que seja comestível. Mais do que isso, é preciso entender a ótica de um grande autor, que procurou demonstrar sua visão de mundo, e dentro dela conflitar o real e o ilusório, o objetivo e o subjetivo, o sonho e a realização, e até que ponto esses elementos podem atingir as mais íntimas entranhas da existência humana.
Em vez de tentar colocar a obra de Machado na prateleira do supermercado, prefiro me perder nas questões que o livro pode levantar: seria Guiomar tão perversa somente por não querer um homem que tanto a idolatra? Teria Guiomar perdido seus sentimentos para a dura realidade da vida, sendo, por isso, incapaz de amar? Sendo o amor um compartilhamento de sensações, não seria Estevão incapaz de compartilhá-lo, dedicando somente a expor seus desvarios a uma mulher? A personalidade de Jorge seria tão medíocre assim a ponto de não considerarmo-lo importante para o desenrolar do romance? Não teria sido Luis Alves o pretendente que melhor soube mergulhar na alma de sua desejada? Ou no fim das contas o amor é um sentimento que não merece tanto esmero, e que perante as situações da vida torna-se uma atitude tão simples quanto por a mão em uma luva? (Luis Alves é a mão e Guiomar a luva!)
São questões que o leitor pode vir a levantar e por mais que não encontre suas respostas (o que provavelmente ocorrerá) é ainda mais vantajoso se perder nelas do que simplificar sua crítica, reduzindo a um único gênero uma obra de grande alcance. Até porque, melhor do que saber se estamos lendo um romance romântico ou realista, é mais interessante mergulharmos em questões intrísecas à vida, as quais Machado de Assis foi capaz de despertar inserindo alguns personagens em um tempo e espaço, tudo isso organizado por sua visão inclassificável.

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