segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Em que pé estamos?


Vivemos em uma sociedade na qual a quantidade, bem como a transmissão das informações, são enormes. As pessoas que têm maior acesso a elas acabam tendo também uma facilidade na hora de compreender e interagir com o mundo. Os avanços tecnológicos são os ícones maiores da modernidade em termos materiais, e aqueles que possuem maiores condições de obter os novos itens da tecnologia realmente levam vantagem na recepção da informação.

Ultimamente, políticas de inclusões têm estendido o acesso a esses meios à grande parte da população, e com isso a circulação de informações atingiu seu ápice. Todo o mundo, por bem ou por mal, uns com mais e outros com menos capacidade de recebê-las, acabam sabendo de tudo o que se passa, porém, dedicando pouco tempo à reflexão sobre aquilo que ficam sabendo.

Desde seu princípio na Terra, o homem, principalmente por necessidade, trabalhou incessantemente para transformar o meio em que vive, adaptando-o a seu modo de vida e visando maior conforto e bem-estar. Os descobrimentos da roda, do fogo, e com o passar do tempo, das ciências, que possibilitaram ao homem uma maneira de entender melhor a realidade em que vive, mostram que o ser humano tinha a necessidade de se colocar no mundo a ponto de não ser um simples animal como os outros. O surgimento das artes mostrou como é possível o ser humano se reinventar, transcender os limites da própria existência e criar um universo paralelo a partir da sua própria visão de mundo.

É verdade que tais descobertas nunca estiveram nas mãos da maioria. Nem mesmo todos os seres humanos foram capazes de criar seu próprio mundo com grande propriedade artística. Mas o que me faz escrever esse texto é uma idéia que me surgiu, e espero que consiga transmiti-la com clareza. Penso que a modernidade, e mais, as transformações da pós-modernidade, aos poucos, vêm secando a cada dia qualquer gota de imposição humana perante o mundo.

Quando o planeta não via nem em tese uma proposta de globalização, cada parte do globo vivia numa espécie de caráter provinciano. Apesar de muitos líderes terem se ambicionado com o domínio de vários países, havia a mentalidade de que a cultura do país dominante deveria se impor perante os vencidos, tal como fez Alexandre, o Grande. Isso porque se pensava que a realidade que cada um conhecia era a maneira de pintar o mundo e ao mesmo tempo compreendê-lo. Nas guerras das Eras Modernas e Contemporâneas a preocupação de imposição continuava, porém e principalmente com o surgimento do capitalismo e uma maior complexidade nas estruturas polítca e econômica, tal imposição parecia estar subordinada a forças e interesses que estavam longe de ser somente de cunho instintivo.

Quando a televisão não existia nem em projeto, e a internet não era objeto de pensamento nem do mais inventivo dos homens, os seres humanos pareciam viver fixamente, olhando o mundo através do lugar em que se encontravam. Tal fixação acabava por possibilitar uma condição mais favorável ao desenvolvimento de idéias e uma concentração maior naquilo que o homem se propunha a fazer.

Até quando os grandes navegadores antigos pensavam em deixar os locais onde viviam e para isso buscavam meios de ganhar todo o mundo através dos mares, é importante frisar que, para isso, foi preciso o próprio sentimento de se sentir preso. A curiosidade pelo novo e acima de tudo a motivação para desbravar o que estava longe foram a mola propulsora para tais avanços. Um homem a observar o céu, estrelas, constelações, planetas e que, antes de qualquer coisa era movido por seu ideal, tinha muito mais chances de fazer uma grande descoberta do que aquele interpelado por forças de ordens diversas. Afinal, imagine se Galileu Galilei teria o mesmo êxito caso deixasse seu telescópio de lado para entrar no orkut, ver as “novidades”(quase sempre superficiais)no site do seu provedor e depois assistir à telenovela.

Mesmo a genialidade não pertencendo a todos, devo dizer que vejo os dias atuais com um distanciamento das grandes transformações. Ainda existem as renovações, é verdade, mas nada parece muito novo. Tudo tem o seu percentual de novidade, mas a essência ainda continua embutida nas idéias dos grandes pensadores antigos.

No campo artístico a cultura massificada aliada à lógica do consumismo acabou por fazer uma devassa em qualquer índice de qualidade na produção, relegando as grandes obras atuais a um panorama de marginalização. Como se não bastasse, a população, também pela facilidade da informação, acabou por perder seu senso crítico, sua capacidade de pensar e questionar aquilo que a rodeia. Os núcleos científicos parecerem ser os únicos capazes de trazer alguma descoberta, mas mesmo assim, me parecem entregues a um mecanismo que prende o descobridor a algo já previsível.

Não é minha intenção tentar esboçar aqui o que acho a respeito do pensamento científico e da mentalidade que rege as normas para uma descoberta, bem como da participação das diferentes classes nesse procedimento. Pretendo falar sobre isso em uma próxima oportunidad. Por hora afirmo que, ao que me parece, hoje em dia há uma sistematização desde o início de uma situação experimental, até passar por sua elucidação e depois divulgação, de forma que encadeie qualquer invenção humana em uma padronização estética da ciência.

Quando Nietzsche propôs a maior reformulação do pensamento filosófico dos últimos tempos, se apresentando como um desmascarador de mitos, estava de fato desconstruindo todas as idéias vigentes, que não eram só das ciências humanas mas que alcançavam também as biológicas e as exatas. Apesar se não terem sido postas em prática, servem como objeto de estudo e a cada dia confirmam que Nietzsche acertara em muito do que disse. Porém, quando se cogita em vê-las realizadas, elas parecem engolidas pela pós-modernidade e engessadas pela sistematização de todos os modos de criação e produção.A isso tudo acrescenta-se, talvez, uma dose de culpa da metafísica e sua objetividade como mãe de todas as coisas.

Na sociedade do “tudo pronto”, na qual o ser humano esta condenado a ouvir a mesma musica, contar o mesmo tipo de piada e vestir o mesmo tipo de roupa dos demais, parecem estar reduzidas as chances de surgirem grandes nomes, nomes de homens capazes de apresentar seus ideais e enxergarem além de toda a parafernalha de informações superficiais e hábitos clichês que os cercam.

Só nos resta saber se até mesmo a ciência irá sucumbir ao marasmo das “novas descobertas velhas”. Como disse Cazuza, “Eu vejo um museu de grandes novidades”. Seria o momento de o homem ir além e buscar no inconsciente, no surreal, no longínquo, ou naquilo que hoje se chama loucura, novos caminhos para a raça humana? É preciso desprender-se de todos os males da "falsa liberdade" e fragmentação que parece protagonizar nossa existência atualmente. E se chegamos ao fim da linha, que inventemos outra.

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